Cozinhar


Minha história com a cozinha começa cedo, por volta dos meus 9 anos. Eu ficava em casa com a Ilma, moça que trabalha lá em casa desde sempre, e ela fazia almoço e eu queria ajudar. No começo, ela brigava comigo. "Menina, sai daqui, cê vai se queimar!" E me dedurava pra minha mãe. "Tati, a Júlia fica me dando trabalho, quer mexer na cozinha, mas eu tenho medo de ela se queimar, se machucar, sei lá. Fala pra ela ficar quieta." E minha mãe, que não é boba nem nada, disse de prontidão: "Deixa! É bom ela aprender!". Daí pra frente, vish, nunca mais parei.

Eu adorava "pisar" o alho com a "mão do pilão" (amava essa brincadeira com as palavras, acho sensacional até hoje), fazer arroz, mexer a carne moída... São lembranças eternas. Aos poucos fui aprendendo um pouco de tudo. Lembro de quando temperei feijão a primeira vez e descobri que é a mesma coisa do arroz (com a diferença que ele já tava cozido, claro). Fiquei de cara que era tão simples e eu tinha tanto medo. As coisas que a gente pensa quando não conhece a coisa, né. 

De lá pra cá, o encantamento com a cozinha só foi se intensificando. De comida do dia-a-dia, cheguei ao presente momento em que, se deixar, fico hooooras assistindo vídeo de receita, um atrás do outro. O Ilan, um amigo querido, costumava brigar comigo quando me via assistindo eles sem parar. "Para de assistir pornô, Júlia!" Não dá. É mais forte que eu.

Hoje sigo uns três ou quatro canais de culinária/confeitaria no YouTube, mas é porque eu me contenho. E porque sou exigente. Assisto só os que são muito bons, bem feitos e interessantes. Até porque, se é pra receber notificação de quando um vídeo é postado, tem que valer muito a pena! Recentemente, depois que vim morar com o Pietro (meu "namorido"), isso passou a fazer parte da nossa rotina. Ele chega em casa e já pergunta "Tem vídeo da Dani? Ou de alguma das outras?" e a gente senta na cama pra assistir juntos, projetado na parede, o(s) vídeo(s) novo(s) que tem. É uma delícia compartilhada, mas a obsessão, mesmo, é minha.

E toda essa assistição de vídeo não poderia ficar só na passividade, né? Ou na salivação, melhor dizendo. Eu pego ideias, acrescento elas aos meus almoços, vou ajeitando tempeiro, jeito de cozinhar, de fazer isso ou aquilo. E sigo sonhando. Ainda quero fazer um curso de confeitaria no SENAC, pra aprender as técnicas mesmo, de fazer os confeitos e as coisas bonitinhas. Por enquanto, sei um pouco mais do que o básico, e vou aprimorando aos poucos.

Recentemente, no entanto, venho pensando nessa coisa de compartilhar (?) o que eu faço, porque tem dia que sai coisa muito bonita da minha cozinha (coisa gostosa sai sempre, como o Pietro faz questão de dizer. "Nunca comi nada que você fez que fosse mais ou menos, que dirá ruim!" ele diz, quando eu pergunto se ficou bom). Aí pensei muito sobre o assunto, claro, e fiquei com o programa aberto na cabeça. Fazer canal do YouTube? Não, não é pra mim. Não fico nada confortável na frente da câmera, teria que ter os equipamentos e o espaço bonitinho, e teria que ser mega bem produzido, pra eu achar minimamente bom. E depois tem toda aquela chatice de ter que começar do zero, com nenhuma visibilidade, e tentar "crescer" pedindo apoio das pessoas, mendigando like e seguidores por aí. Definitivamente, não é a minha.

Eis que o Pietro, essa pessoa de muita sabedoria com quem eu divido a casa, sugeriu fazer um blog. Assim, despretensioso, mesmo, pra registrar as coisas que eu ando fazendo - pra ver se não esqueço delas, e posso até fazer de novo, depois. Achei que seria uma boa ideia, principalmente porque já tenho recebido pedidos de "receitas" das coisas que eu faço e posto foto no Instagram/Facebook. 

A ideia une o útil ao agradável, e me coloca no meu ambiente de segurança. Escrever é, definitivamente, a minha praia. E eu posso compartilhar, a título de "quem quiser saber, tá aqui, ó", mas não preciso dos views, dos likes, dos compartilhamentos, dos seguidores. E a coisa tem chance de crescer, quem sabe, ou de ser apenas o registro mesmo da minha vida mundana, que eu tento dar uma melhorada com umas doses de comida gostosa (e uns doces, é claro, que eu sou uma formiga incurável!).

Então, se você está disposto a conhecer um pouco mais do que rola na minha cozinha, seja bem-vindo. Um beijo, e um brinde a esse projeto novo que nasce, como não poderia deixar de ser, com a vontade de continuar espalhando amor pelo mundo, pelos dois jeitos que eu sei fazer melhor: palavras e comidas. 

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